terça-feira, 10 de novembro de 2009

Coisa antigas que ( ainda) não estão entre nós

  Depois dos anos 1960, estudiosos de literatura, como o alemão Wolfgang Iser, deram-se conta de que determinado procedimento de interpretação de textos não conseguia explicar obras da literatura daquele contexto. Ou melhor, os critérios não mais alcançavam as obras, ou as obras começaram a se tornar incompreensíveis diante dos procedimentos habituais de interpretação. Determinadas convenções orientadoras não atendiam à recepção das obras literárias.
 Novas experiências culturais da modernidade, proposições teóricas de mais de uma área de conhecimento e mais o clima anti-autoritário da revolta estudantil de 1968 no mundo, colaboraram nesse sentido. A perspectiva que Wolfgang Iser propõe trata o fenômeno literário como algo relacionado à contingência, à idéia de diferença, de construção parcial de mundo, de caráter provisório das identidades, de equilíbrio flutuante, de “heterarquias”, ao invés de hierarquias.  E de uma noção de indivíduo que leva em conta suas realizações, sua linguagem, suas obras, seus costumes, sua cultura.

 Iser se inspira em pontos de vista da época voltados para o relacional, o inclusivismo, a contextualização, a temporalidade. Estuda-se literatura, diz Iser, para entender como as coisas são o que são. Ao invés de procurar a verdade, a literatura busca estudar o lugar da emergência. Não há diferença entre ficção e realidade - continuamente formatada e produzida.Por isso, recorre à sociologia do conhecimento, à psicanálise, à psicologia, para compreensão dos mecanismos de subjetivação como interações complexas, que ele vê também na relação entre texto e leitor.


As investigações de Berger e Luckmann, na sociologia do conhecimento  dizem  respeito à Construção Social da Realidade. Questionando a visão do caráter a-histórico do “sistema social” e da “natureza humana”, os dois autores trazem uma perspectiva radicalmente diferente das concepções teóricas vigentes ao assinalarem que o homem ao construir a realidade, se constrói a si próprio, em processo de transformação constante, em que natureza, sociedade, realidade objetiva e subjetiva, vão se opor e se integrar. Importa, portanto, o que é dado, o que aparece como empírico e não o caráter de causalidade. Desse modo, as instituições, o instituído,  são construídos  a partir da relação entre sujeito e sociedade, onde os limites entre um e outro são bastante tênues.  


Ronald Laing, H. Phillipson e A. R. Lee, ligados ao movimento  chamado de anti-psiquiatria dos anos 1960/70, mostraram como  os  modelos  clássicos  no  âmbito da psicologia e da psicanálise, primando por  um ponto de vista egotista,  eram  insuficientes  para  a concepção de   identidade. As teorias e estudos do indivíduo, isolando-o de seu contexto, garantem uma identidade constituída de um “eu” fechado e desvinculado do mundo dos outros.
Esses autores, a partir de uma área de conhecimento que chamam de “fenomenologia social”, mostram como a posição de uma pessoa é experimentada por outra, no face a face, o que pode ser estendido a qualquer outra díade. Trata-se de distinguir entre uma concepção da vida social como constituída por uma multiplicidade de egos e outra que tem a experiência do eu somente enriquecida na relação com o  você, ela, ele, nós, eles.


Iser recorre também às idéias de Roland Barthes e propõe o  texto como jogo


 O prazer do texto, a “absorção mais intensa do leitor no jogo do texto”, sistema de leitura caro a Barthes, significa para Iser a  capacidade de absorção do leitor no “jogo do texto”. Um sistema de leitura que convém ao “texto limite”, o texto moderno. Aqui, diz ele, o sujeito se põe no jogo, “pondo-se em jogo; desliza para o texto”.  Uma leitura, um jogo, uma relação, que requer um sujeito que se elimine como referência, para que transpasse o limiar, o outro.
 Para Barthes ao abstrair-se de si mesmo, o leitor torna-se um leitor “aristocrático”, que não é o mesmo que um leitor elitista. O “aristocrata” de Barthes é aquele que abandona seus costumes, familiaridades, evidências. O prazer dessa relação está no outro, ele surge a partir das condições do texto. Nesse caso, o prazer que é puramente do próprio sujeito, desaparece rapidamente numa interação do sujeito com o texto onde o prazer pode ser desdobrado em repetição infinita, pelo auto-esquecimento, pelo perder-se. Talvez alcance até uma eternidade que na vida real não se tem como  alcançar. O deslizar para a falta de fundamento, para a experiência da alteridade, é o que está em jogo nessa relação onde “o sujeito leitor coincide com o ‘sujeito do texto’”.