sábado, 7 de novembro de 2009

Ao mesmo tempo




Todo ano acontece em Porto Alegre a Feira do Livro. A Praça da Alfândega fica tomada pelo trânsito de pessoas circulando pelas “alamedas” cercadas de barracas de livros.  Tem também diariamente os autógrafos, palestras, encontros, contatos corpo a corpo com escritores. Muitos deles, os de sempre, outros, nem tanto.


Apesar de gostar muito da idéia de caminhar entre os livros, e de ver tanta gente fazendo a mesma coisa, tenho minhas dúvidas se esse tipo de evento consegue aproximar as pessoas da leitura, ou se ele atende bem mais à questão de vendas para os escritores (os conhecidos, divulgados), editores e distribuidores.

Pelo segundo ano seguido, depois de andar pela Feira, me interessaram as barracas das editoras universitárias, com seus livros de projetos gráficos modernos e conteúdo especial. De novo parei no stand da  Editora da Unisinos. Ano passado levei o livro Contra a Comunicação do professor de Estética e crítico de cultura italiano, Mario Perniola. Neste ano, 3 livros de Ivan Izquierdo, neurocientista argentino, naturalizado brasileiro, pesquisador em  Fisiologia da Memória. São três preciosidades: Questões sobre memória; Silêncio, por favor e Tempo de viver.


Sou fascinada por textos e livros de ensaios, ou pelos que tem gênero indefinido, “impuro”. Misturam as coisas, são ficções e ao mesmo tempo autobiográficos, são críticos, instigantes, tem linguagem inovadora e muito pessoal. São livros difíceis de serem classificados, de encontrarem nas estantes de livrarias e bibliotecas lugar óbvio e confortável.


O livro de Mario Perniola está à venda neste ano, novamente. Penso que são dois os motivos; por ser atual e por não ter lá grande público consumidor. Devem existir ainda muitos exemplares de sua edição. O título é um tanto radical, a crítica de cultura não é algo “agradável” e há uso de termos filosóficos, o que é considerado incompreensível e hermético por muitos. Uma pena.


Criaturas como Mario Perniola, que conhece bem o Brasil, tem antenas ligadas, sensibilidade aguçada em relação às coisas do mundo, aos modos de interação da atualidade. E vive num país, cujo primeiro ministro, Silvio Berlusconi, tem seu poder acrescido pelo fato de ser  dono de grande rede de comunicação. 
Destaco em seu livro uma de suas reflexões, que é a idéia de uma dimensão da comunicação de caráter “pseudocompetitivo”, que ele define como a “sub-cultura da performance”, de grande penetração social na atualidade. 
É um estilo de vida, uma sensibilidade já pronta, à mão, em que predomina o culto da performance que não estimula nada no plano individual e singular,  ao contrário, é um processo impessoal. Há nessa cultura um aspecto energético enfatizado ao máximo. Continuamente busca-se novos recordes e a superação de deficiências, não para alcançar prazer, mas para a manutenção da excitação. Caracteriza-se por ser um estado eufórico, próximo da addiction. É  violento e facilitador da entrada e da permanência das pessoas,  à força, no cenário público.


Perniola  trata a comunicação como um discurso homogeneizador em que as coisas são reduzidas à aparição pura, à ausência de conteúdo vital ou reflexivo, por conta da espetacularização e da performance.
Antes de iniciar o texto do livro ele afirma:


                           A comunicação é o oposto do conhecimento.
                               É inimiga das idéias porque necessita
                           dissolver todos os conteúdos. A alternativa
                           é assumir um modo de agir baseado na
                           memória e na imaginação, num desinteresse
                           interessado que não tenta fugir do mundo
                           mas, de forma inversa, passa a movê-lo.



Os textos do médico, neurocientista,  Ivan  Izquierdo, são surpreendentes. Delicados e ao mesmo tempo questionadores, tratam de humanidades de modo simples, próximo, e com beleza. Ele usa seus conhecimentos em Neurociências, que define como “ramo da Biologia e da medicina que abrange o estudo do sistema nervoso em todos os seus aspectos, desde a anatomia aos processos psicológicos”. 
Não há separação entre a fisiologia e a subjetividade, ambas entremeadas pela vida afora, se afetando mutuamente. Uma de suas indagações para reflexão é a seguinte : “Em que distinguimos os humanos dos demais primatas? No uso da tecnologia ou na posse de um conjunto de sentimentos e afetos que nos são essencialmente próprios?” Mais adiante ele diz: “ O desenvolvimento tecnológico dos humanos é simplesmente uma decorrência de sua capacidade intelectual e afetiva”. 

Izquierdo recorre à literatura e à arte, trazendo com isso mais sensibilidade ainda aos seus temas. Cita poetas, escritores e artistas, enaltece o poder da imaginação, critica a “sociedade anestesiada” em que nos fazem acreditar em valores que na realidade não existem. Fala da consciência cidadã voltada para um mínimo de compaixão e decência.
Para manutenção da memória, Izquierdo diz que os melhores exercícios mentais são a leitura e o hábito de estudar. Lendo é possível se recriar imagens e classificar as coisas do universo. Trabalha-se por isso com a memória visual, auditiva ou verbal. Coloca-se no centro a linguagem, que é o que nos distingue dos animais. A linguagem, lida ou ouvida, pode gerar e entender idéias, “fazer e desfazer conceitos, opiniões, leis, normas e regras, mudá-las, etc...”
Já a falta de desenvolvimento intelectual, de uso do cérebro, pelo hábito de não pensar, de não se interessar por nada, muitas vezes tido como algo inútil ou como uma “frescura”, impossibilita a capacidade de fazer e evocar memórias.