domingo, 8 de novembro de 2009

Conversações

Na perspectiva do filósofo norte-americano Richard Rorty, de uns duzentos anos para cá, duas tendências vêm reunindo suas forças e tornando-se culturalmente preponderantes no mundo ocidental.  A Revolução Francesa mostrou que o vocabulário das relações sociais, assim como o espectro das instituições sociais, poderiam ser substituídos de um dia para o outro. A idéia de verdade como algo a ser revelado dá lugar à noção de que a verdade é feita, construída. 
Mais ou menos na mesma época, os poetas românticos passaram a ver a arte não mais como imitação, mas como autocriação do artista. Para o Romantismo, a arte deveria ocupar o mesmo lugar na cultura que a filosofia e a religião haviam ocupado, e ainda o mesmo lugar que o Iluminismo reclamava para a ciência.  No final do século 18 houve uma abertura para a idéia de que a moral, o mal, o bem, os valores, poderiam ser substituídos por novas re-descrições dos objetos em causa. O instrumento capital de mudança passou a ser visto mais como o talento para falar de outra maneira do que para a boa argumentação.


   Desde então, alguns filósofos vieram mantendo fidelidade ao iluminismo, identificando a filosofia com a ciência, considerada como a atividade paradigmática do ser humano. O antigo confronto entre ciência e religião, razão e irracionalidade, assume, para essa linha de pensamento, a forma de um confronto entre a razão e as forças culturais que pensam a verdade como sendo feita e não descoberta. O fato científico sólido passa a ser contraposto ao fato subjetivo.
 Já outros filósofos tomam a ciência como mais uma atividade humana, alinhando-se tanto ao lado dos políticos utópicos, que vislumbram transformações sociais, quanto dos artistas inovadores, que pensam a arte como autocriação – não como imitação, e a realidade como indiferente em grande parte às descrições que dela fazemos.
   Para esses intelectuais, perspectiva alguma poderia ser considerada a mais correta.  Não há correspondência entre a visão e o modo como as coisas são, pois elas não existem natural  e a-historicamente. Modos de dar sentido à vida particularmente das pessoas ou à vida social e coletiva, tornaram-se questões para a arte ou para a política e não mais para a religião, filosofia da tradição ou ciência.  
Rorty sugere que a filosofia seja aberta à contingência da linguagem, que ela se ocupe da re-descrição de várias coisas, de muitas outras maneiras, sem que isso se constitua em um modo melhor de ver o mundo. Sem se prender a critérios prévios, a filosofia pode tornar atraente um novo vocabulário.  Uma filosofia que não se constitui como uma forma de conhecimento da verdade, nem como um instrumento de conservação, mas de mudança. A realidade, para esse modo de pensamento, é um termo de valor ou de escolha.
 A Filosofia, argumenta Rorty, área da cultura fundada por Platão, teve origem na tentativa de escapar ao tempo para um mundo em que nada mudasse, de escapar dos desejos transitórios, com a idéia de que passado e futuro não têm grandes diferenças. Sociedade e cultura são assim observadas de um ponto de vista exterior, a-histórico, da verdade imutável. Quando os filósofos começaram a valorizar o tempo e a história, ao invés de desejar o conhecimento de um outro mundo, passaram a colocar suas esperanças com relação ao futuro deste mundo. A filosofia começou então a distanciar-se da questão “O que somos?” e a aproximar-se de outra “O que poderíamos vir a ser?”.