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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O eu e os outros - O eu e as obras de arte – Um modo de ver

 Primeira metade do século 20, Martin Buber, judeu austríaco, filósofo, diz:

 Frequentemente, julgamos tanto as pessoas quanto os objetos por sua função. Isto pode ser útil: para um médico, ao examinar um paciente a procura de doenças específicas, é melhor que ele veja o paciente como um organismo e não como indivíduo; cientistas podem aprender muito sobre nosso mundo observando-o, medindo-o, examinando-o, testando-o.

Infelizmente, vemos as pessoas do mesmo modo na maioria das vezes. Ao invés de nos tornarmos completamente acessíveis, compartilhando totalmente, realmente conversando, compreendendo o outro, nós os observamos ou mantemos parte de nós mesmos fora do momento da relação. Nós fazemos isto para proteger nossas vulnerabilidades ou para fazer com que eles respondam de alguma maneira pré-concebida, para conseguir alguma coisa.

Para Buber, a relação ideal, que chama de Eu-Tu acontece quando se está completamente imerso na relação, realmente entendendo e “estando lá” com outra pessoa, sem máscaras, pretensões, falsidades, até mesmo sem palavras. Na dimensão da alteridade é que o filósofo vê o espaço entre o “eu” e o “outro”,  o autêntico terceiro,que chama de relação inter-humana, diferente de relações sociais.
Assim, perceber o outro é tomar dele um conhecimento íntimo, diferente da observação analítica que reduz e transforma o outro em simples objeto.  É "tornar o outro presente", pelo diálogo, pela palavra, sem que haja supremacia de um sobre o outro.


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Coisa antigas que ( ainda) não estão entre nós

  Depois dos anos 1960, estudiosos de literatura, como o alemão Wolfgang Iser, deram-se conta de que determinado procedimento de interpretação de textos não conseguia explicar obras da literatura daquele contexto. Ou melhor, os critérios não mais alcançavam as obras, ou as obras começaram a se tornar incompreensíveis diante dos procedimentos habituais de interpretação. Determinadas convenções orientadoras não atendiam à recepção das obras literárias.
 Novas experiências culturais da modernidade, proposições teóricas de mais de uma área de conhecimento e mais o clima anti-autoritário da revolta estudantil de 1968 no mundo, colaboraram nesse sentido. A perspectiva que Wolfgang Iser propõe trata o fenômeno literário como algo relacionado à contingência, à idéia de diferença, de construção parcial de mundo, de caráter provisório das identidades, de equilíbrio flutuante, de “heterarquias”, ao invés de hierarquias.  E de uma noção de indivíduo que leva em conta suas realizações, sua linguagem, suas obras, seus costumes, sua cultura.

 Iser se inspira em pontos de vista da época voltados para o relacional, o inclusivismo, a contextualização, a temporalidade. Estuda-se literatura, diz Iser, para entender como as coisas são o que são. Ao invés de procurar a verdade, a literatura busca estudar o lugar da emergência. Não há diferença entre ficção e realidade - continuamente formatada e produzida.Por isso, recorre à sociologia do conhecimento, à psicanálise, à psicologia, para compreensão dos mecanismos de subjetivação como interações complexas, que ele vê também na relação entre texto e leitor.


As investigações de Berger e Luckmann, na sociologia do conhecimento  dizem  respeito à Construção Social da Realidade. Questionando a visão do caráter a-histórico do “sistema social” e da “natureza humana”, os dois autores trazem uma perspectiva radicalmente diferente das concepções teóricas vigentes ao assinalarem que o homem ao construir a realidade, se constrói a si próprio, em processo de transformação constante, em que natureza, sociedade, realidade objetiva e subjetiva, vão se opor e se integrar. Importa, portanto, o que é dado, o que aparece como empírico e não o caráter de causalidade. Desse modo, as instituições, o instituído,  são construídos  a partir da relação entre sujeito e sociedade, onde os limites entre um e outro são bastante tênues.  


Ronald Laing, H. Phillipson e A. R. Lee, ligados ao movimento  chamado de anti-psiquiatria dos anos 1960/70, mostraram como  os  modelos  clássicos  no  âmbito da psicologia e da psicanálise, primando por  um ponto de vista egotista,  eram  insuficientes  para  a concepção de   identidade. As teorias e estudos do indivíduo, isolando-o de seu contexto, garantem uma identidade constituída de um “eu” fechado e desvinculado do mundo dos outros.
Esses autores, a partir de uma área de conhecimento que chamam de “fenomenologia social”, mostram como a posição de uma pessoa é experimentada por outra, no face a face, o que pode ser estendido a qualquer outra díade. Trata-se de distinguir entre uma concepção da vida social como constituída por uma multiplicidade de egos e outra que tem a experiência do eu somente enriquecida na relação com o  você, ela, ele, nós, eles.


Iser recorre também às idéias de Roland Barthes e propõe o  texto como jogo


 O prazer do texto, a “absorção mais intensa do leitor no jogo do texto”, sistema de leitura caro a Barthes, significa para Iser a  capacidade de absorção do leitor no “jogo do texto”. Um sistema de leitura que convém ao “texto limite”, o texto moderno. Aqui, diz ele, o sujeito se põe no jogo, “pondo-se em jogo; desliza para o texto”.  Uma leitura, um jogo, uma relação, que requer um sujeito que se elimine como referência, para que transpasse o limiar, o outro.
 Para Barthes ao abstrair-se de si mesmo, o leitor torna-se um leitor “aristocrático”, que não é o mesmo que um leitor elitista. O “aristocrata” de Barthes é aquele que abandona seus costumes, familiaridades, evidências. O prazer dessa relação está no outro, ele surge a partir das condições do texto. Nesse caso, o prazer que é puramente do próprio sujeito, desaparece rapidamente numa interação do sujeito com o texto onde o prazer pode ser desdobrado em repetição infinita, pelo auto-esquecimento, pelo perder-se. Talvez alcance até uma eternidade que na vida real não se tem como  alcançar. O deslizar para a falta de fundamento, para a experiência da alteridade, é o que está em jogo nessa relação onde “o sujeito leitor coincide com o ‘sujeito do texto’”.