Em 08.11.2007 assisti a uma entrevista que Camille Paglia deu à imprensa, por conta de sua conferência “A Mulher na Arte: da Idade da Pedra até Hollywood” no Seminário Fronteiras do Pensamento, que vem ocorrendo anualmente em Porto Alegre.
A idéia que tinha da feminista era baseada em notícias de jornal que não me interessavam. Me surpreendi com essa pessoa ao escutá-la ao vivo. Importante o estilo dela, na contramão de modelos que, a meu ver, estão fora da realidade. A conferência surpreendeu a quem esperava uma criatura polêmica e apenas isso. Muito boa a interpretação que ela fez da imagem da mulher por meio da Arte.
Aqui estão sintetizadas suas respostas aos jornalistas em entrevista coletiva antes da Conferência.
Mulher: profissional X dona de casa
Sou das poucas vozes do movimento feminista da década de 90 a defender a inclusão no feminismo das mulheres donas de casa, as que não trabalham. A segunda onda do feminismo denegriu as donas de casa, já que a idéia é a valorização apenas das mulheres com profissão, o que é um produto do capitalismo competitivo e da revolução industrial. Ocorre que as mulheres donas de casa, depois dos 60 anos, ficam isoladas por não terem carreira profissional, e as que trabalham, quando chegam a essa idade não se sentem isoladas, são mais realizadas.
Britney Spears, Madonna
Britney Spears é um produto da revolução iniciada por Madonna. Mas há uma enorme diferença entre as duas, graças ao contexto de onde surgiu cada uma.
Madonna é um produto do catolicismo italiano, caracterizado pelo ambiente severo, pelo sado-masoquismo, pela adoração das imagens, o que colaborou para delinear suas atitudes e carreira, que já começou madura e vem durando décadas, permeada por sua transição para o mundo da moda. Além disso, antes de se firmar como cantora, foi morar sozinha em Nova York, estudou dança moderna, rebelou-se contra as superstições dos adultos, libertando-se de sua tutela, o que fez dela uma artista.
Britney Spears nasceu em Louisiana, teve educação protestante e conservadora, sem influência de imagens, o que não permitiu que alcançasse canais de expressão imagética. Foi influenciada pelo “clube do mickey mouse”, pela dança popular. Em sua vida não houve transição da fase da infância para a maturidade, o que pode ser visto num certo ar de Lolita que possui e na sua incapacidade de criar os próprios filhos.
Enquanto Madonna tem um proveitoso entendimento do uso de imagens, Britney foi capaz de se deixar fotografar saindo de um carro quando estava sem roupas de baixo, transformando-se em vítima de paparazzis. E a pergunta que se deve fazer é se o tempo de Britney já passou ou ela terá condições de retornar como Judy Garland, Catherine Hepburn, Betty Davis, que retornaram em grande estilo?
Modelo de mulher no século 21
Em relação a modelos de mulher, a era das grandes estrelas de Hollywood está acabando. Em 1992, no filme Instinto Selvagem, Sharon Stone teve uma excelente performance. Tenho preferência pelo estilo de mulher que é capaz de ser crítica, polêmica e de assumir suas posições.
Mulher hoje na TV
Na TV, hoje as mulheres têm uma imagem mais profissional. Nos Estados Unidos, havia antigamente duas imagens marcantes, a de Lucily Ball, no papel de uma dona-de-casa frustrada e a de Mary Tiler Moore, desempenhando a profissional insegura, submissa ao chefe. Hoje há uma enorme diversidade pelo mundo afora que se reflete na tv.
Feminismo atual
O movimento feminista está vivo e atuante nos EUA, não é mais tipificado pelas feministas anglo-americanas que o tornaram rígido, puritano, centralizando nos homens as causas dos problemas das mulheres. Eu não aceito o rótulo de pós-feminista que me é dado pela mídia. O que ocorre é que é um movimento que atravessa ciclos, o que o torna às vezes atuante e, em outros momentos, parece que está atrás dos bastidores. Depois do atentado de 11 de setembro, o movimento feminista ficou em segundo plano na mídia. Além disso, a guerra entre as várias alas do feminismo, que é característica dos EUA, não se repete no resto do mundo. Glória Steiner, que representa um segundo movimento feminista, foi destronada por um grupo do qual faço parte, em que se é a favor da beleza, da moda, do sexo, do prazer. Com isso, voltamos à cena, ganhamos espaço.
Sou uma feminista a favor da igualdade de oportunidades, considero que devem ser removidas as barreiras que impedem a ascensão da mulher a todos os postos da vida social. Sou contra posturas femininas que reivindicam proteções especiais como se precisassem de supervisão. Critiquei o movimento feminista por achá-lo limitado e frágil ao tratar dos problemas de gênero como unicamente ligados ao plano social, sem a aceitação do biológico, da natureza. Como exemplo, a maternidade, que tem um vínculo com a natureza. Por não aceitar todo o pacote do feminismo, por considerar que ele não pode ser um sistema intelectual, fui atacada com ferocidade pelo meio feminista, que, a meu ver, foi transformado num dogma, como uma religião.
Meu sistema é muito abrangente. Há lugar, por exemplo, para Carmen de Bizet. A imagem da mulher fatal não diminui a mulher, mostra é o poder que ela exerce no âmbito da sexualidade.
Casa, vida profissional, aparência
Hoje, a cultura popular dominante tem obrigado as mulheres, e também os homens, a submeterem-se à tirania do ser sexy eternamente. As mulheres colocam-se em competição com as mais jovens, os homens, especialmente os que ocupam posições de liderança, os de classe média alta, são pressionados a cultivar a obsessão com a aparência, modelada no aumento dos músculos. Com as mudanças em relação ao trabalho, provocadas pela era pós-industrial, tanto as mulheres quanto os homens, distanciam-se mais do lar em função de seus postos de trabalho, e as dificuldades em relação aos cuidados dos filhos tornaram-se significativas. Antes da era industrial, as famílias eram mais estendidas e não nucleares como as de hoje, o que significava que havia mais apoio de vizinhos e parentes em relação aos cuidados com os filhos. As mulheres só se preocupavam com a beleza na juventude, até o casamento. Na meia-idade, elas podiam engordar, encarnando a figura cheia de poder e valorizada da velha geração feminina.
Movimento gay, sociedade sem gênero, espaço da mulher
Não considero que estamos caminhando para uma sociedade sem gênero. Está havendo mais espaço para que homens e mulheres recorram à plasticidade em suas vidas, com sexualidades cambiantes, como numa representação teatral. Mas me preocupo com a disseminação do movimento gay na cultura popular, por impedir a vivência da bissexualidade. Os jovens vêm passando por uma pressão considerável para declarar suas preferências e identidades sexuais antes de atingirem a maturidade. Eles se alteram fisicamente, aplicando-se hormônios, meninos e meninas. Eu, quando optei muito jovem pela vida de escritora, foi para dar vazão e expressar minha ambigüidade.
Esse tipo de pressão se deve, a meu ver, à disseminação nas instituições de ensino de uma ideologia que é fruto do pós-estruturalismo, e que tem em Judith Butler sua maior representante.
Gênero não existe na natureza, diz Judith, é criado pela sociedade. No entanto, existem diferenças biológicas entre homens e mulheres, o que tem consequências físicas e psicológicas. Homens têm determinado tipo de hormônio em maior quantidade do que as mulheres. Eu adoto a posição da bissexualidade humana sem demarcações entre heterossexual e homossexual. Vemos com clareza que no estudo das artes visuais pode-se ter uma postura mental de apreciar o nu artístico, tanto do homem quanto da mulher.
A abertura em relação à afirmação da homossexualidade, principalmente nos homens, tem colaborado para um isolamento. Os gays vivem mais entre si e pouco lidam com mulheres heterossexuais. Não ocorrem mais situações como as vividas por Tennessee Williams, escritor que mais admiro, que tinha que conviver com mulheres, o que colaborou para que produzisse uma literatura de qualidade.
Além disso, a opção precoce pela homossexualidade vem acarretando uma perda do poder da expressão sexual. Há uma banalização da carga erótica entre as mulheres que acarreta uma dessexualização. Nos EUA, não há mistério mais nas mulheres. Os homens não vêem mais as mulheres com apelo sexual. No Brasil há um maior erotismo que pode no entanto levar a mulher a exageros em relação à preocupação com a forma física.
Hillary Clinton
Não é nada animador ver Hillary Clinton liderando as pesquisas como candidata democrata à presidência dos EUA. Ela não é política por natureza e está a reboque do marido que é bem diferente no contato com o povo. Ele era capaz de passar horas próximo às pessoas na rua. Ela é cerebral demais, não gosta de se envolver com pessoas, tem é ambição pelo poder. E apesar da mídia mostrar o contrário, ela não tem afetividade nem com o marido, nem com a filha.
Prefiro uma senadora da Califórnia, chamada Dianne Feinstein, que é firme, ativa e fala com grande conhecimento de causa. Mas, para ser indicada é preciso ter dinheiro e investir 2, 3 anos em campanha. E acredito que ela não o faria.