terça-feira, 30 de março de 2010

Capacidade imaginativa, autonomia e justiça social

                              
                                                                                                                          
 Argumentos do filósofo Gianni Vattimo em A Filosofia e o Declínio do Ocidente, texto publicado na Revista Famecos, n.10.1999, Porto Alegre. PUCRS, acerca da ausência de critérios racionais e lógicos nos textos de filósofos como Richard Rorty e Derrida, ressaltando as dificuldades em relação ao tratamento teórico de questões emergentes e problemáticas do plano político e social, me inspiraram a escrever sobre a (im) possibilidade da filosofia, que se quer anti- metafísica, de reunir a um só tempo questões relativas à autonomia privada e à justiça social.

 A atual liberação das mais variadas visões de mundo, acompanhando a crise da “centralidade” e da hegemonia política do Ocidente, resulta numa pacífica convivência dos múltiplos estilos, seja na arte e mesmo na vida, como num museu imaginário, ou, diferentemente, pode acarretar conflitos, reivindicações de validade, afirmações de pertença?  Essa é uma questão que Gianni Vattimo traz, referindo-se, especialmente, ao “procedimento desconstrutivo” de Jacques Derrida e à afirmação do pluralismo à maneira de Richard Rorty, que, guardadas as diferenças, diz ele, representam, de “forma exemplar, a atual filosofia pós-metafísica”, que não é “toda a filosofia contemporânea”.
Para Vattimo, a aceitação explícita do mundo atual como mistura, mestiçagem, de identidade frouxa e de dogmática liberal (religiosa, filosófica, cultural) configura-se em algo mais do que o espírito de tolerância generalizada, podendo coincidir com a indiferença ou minimalismo, confinando-se num apartheid.  “Espera-se da filosofia alguma indicação de critérios racionais para evitar que a diferença degenere em verdadeira guerra de culturas. É impossível não ver que a filosofia atual não responde a essa demanda”. 
Derrida pratica a filosofia mais como discurso poético do que como argumentação racional, comenta Vattimo.  “Não por exprimir-se em poesia ou romance, mas porque, contra um requisito essencial da filosofia, recusa-se pragmaticamente a começar de alguma ‘introdução’. Derrida não explica mais a razão da escolha dos seus temas, prossegue o filósofo italiano. Propõe belíssima meditação sobre termos e conceitos de filosofia da  história, reconstruída  de  modo   subjetivo, sem  porém  teorizar  a   necessidade ‘lógica’  da  utilização   dos   argumento”.

 No entanto, para o filósofo Richard Rorty, há uma primeira fase em que Derrida é “mais profissional e acadêmico” e outra em que é capaz de “alargar as fronteiras da possibilidade”, como na obra La Carte Postale de Socrates a Freud et au dela (1980), especialmente na seção intitulada Envois. Por ser um texto com a forma de uma seqüência de cartas de amor - o que lhe dá movimento e legibilidade - resulta em um tipo de livro, argumenta Rorty, que ninguém tinha pensado antes.  Com isso, Derrida faz com a história da filosofia o que Proust faz com a história de sua vida no livro Em busca do tempo perdido. “Derrida evita a nostalgia heideggeriana da mesma maneira que Proust evitou a nostalgia sentimental - recontextualizando incessantemente tudo quanto a memória traz (...). Nem  Em  Busca  do  Tempo  Perdido  nem  Envois  se  encaixam   em  qualquer  esquema  conceitual  anteriormente  utilizado  para  avaliar  romances  ou   tratados  filosóficos”.
 Na perspectiva de Rorty, Derrida com essa escrita distancia-se do “jogo de linguagem” (ou do discurso) que faz distinção entre fantasia e argumentação, entre filosofia e literatura, “entre escrita séria e escrita lúdica”. Mas, apesar de não haver nessa obra de Derrida  correspondência  com  critérios  disponíveis e estabelecidos- o que dificulta  sua  identificação com   um  gênero  específico, Envois  conta  como  filosofia, porque  só  tem  como  ser  apreciada   por    pessoas  que  lêem   filosofia   habitualmente, diz  Rorty; ainda  que  não  resulte  em  nada  que  se  pode  chamar  de  teoria   filosófica. 
   Esses textos de Derrida, mesmo sendo sobre teorizadores, ficam distantes da atividade teórica como tarefa filosófica, diz Rorty. “Derrida está cada vez menos preocupado com o inefável e cada vez mais voltado para a redisposição bela, ainda que fantástica, daquilo que recorda”.
  Ao voltar-se para a fantasia privada, Derrida não repete aquilo que repudiou nos antecessores. Nem procura conciliar a busca de autonomia individual com uma escrita teórica com pretensões de ressonância e utilidade pública.  “Derrida privatiza o sublime, tendo apreendido com o destino dos seus antecessores que o público nunca pode ser mais do que belo”.  Ao invés de buscar a natureza da linguagem e de reduzi-la às palavras elementares, o Derrida da fase mais recente prolifera, nas palavras de Rorty, mais interessado pela sensualidade do que pelo esplendor do simples, da pureza e da inefabilidade. Tudo o que o liga à tradição filosófica é o fato de os filósofos do passado serem os assuntos das suas fantasias vivas. Não há, para Derrida, o “caráter primordial”, caráter não relacional e absoluto, buscado pelos metafísicos, no “nome único”, na “palavra elementar” ou na “condição de possibilidade sem condição”.
  Em Envois, Derrida escreve como alguém que não pretende uma conclusão, um resultado, um desfecho, que não tem o problema de como terminar o seu livro. E, recusando as regras de vocabulários estabelecidos, Derrida não está sendo “irracional” ou “perdido na fantasia”, mas está criando-se a si próprio, criando seu jogo de linguagem.  Um jogo que faz um corte transversal na distinção racional/irracional.
Para Rorty, não há sentido em atribuir um gênero a um livro original e sem precedentes.  Os metafísicos, diz ele, “são os únicos que pensam que os critérios e gêneros presentes esgotam a esfera das possibilidades”. Alguns projetos intelectuais estão voltados para uma política em escala institucional e pública, outros se situam numa dimensão restrita ao plano individual e privado.   Não há como se cobrar de um intelectual que atua em dimensão privada projetos com destino institucional e público. O que não implica por parte destes últimos uma irresponsabilidade diante da vida pública.  
 Isto porque a solidariedade não tem como ser encontrada como se estivesse à nossa espera, como algo que reconhecemos, argumenta Rorty. Ela é construída a partir de pequenas peças. Não é fruto do reconhecimento e fortalecimento de “um eu central, da essência humana em todos os seres humanos”, mas antes é “a capacidade de ver cada vez mais diferenças tradicionais (de tribo, religião, raça, costumes, etc...) como não importantes, como comuns, em comparação com semelhanças no que diz respeito à dor e à humilhação - a capacidade de pensar em pessoas muito diferentes de nós como estando incluídas na esfera do ‘nós’ ”.
      Rorty, assim como outros filósofos contemporâneos, preocupa-se com as alterações nos conceitos e usos da noção de verdade e justiça, repudiando qualquer forma de atualização do racionalismo. Questões da ética e da moral tomam um lugar relevante em seu pensamento. E quanto às convicções, mesmo que tenham uma validade relativa, elas devem ser defendidas sem vacilações, pensa Rorty. Com relação à filosofia, Rorty pretende mostrar que não há uma ordem natural da investigação filosófica. Por isso, no atual contexto sócio-cultural, a filosofia não deveria insistir na manutenção de um lugar para os problemas tradicionais da filosofia moderna.   
Rejeitando a imagem da filosofia como profissão, Rorty vê a atividade filosófica como tendo um lugar central, mas não privilegiado, no que ele chama de grande conversação. O diálogo permanente e crítico, aberto e inconclusivo, com outras áreas de saber e outras formas de pensamento. Se pontos de vista de filósofos da contingência, como Wittgenstein, Dewey e Davidson, entre outros, fossem levados mais a sério, argumenta Rorty, a auto-identificação do filósofo poderia se dar mais em termos dos livros que lê de outros filósofos do que dos termos que pretenda resolver. 
       Voltando-se para a “desconstrução” em Derrida, Rorty comenta que, em um dos seus sentidos, ela refere-se aos projetos filosóficos em que Derrida dá prosseguimento a uma linha iniciada por Nietzsche rejeitando a distinção heideggeriana entre pensadores e poetas, rejeitando a restauração do profissionalismo filosófico que foi operado por Heidegger e que Nietzsche desprezou. Já em outro sentido, “desconstrução” refere-se a um método de leitura de textos, resultando numa posição que não deve ser atribuída a Derrida que rejeita a idéia de método, de um “plano de base fixado”.  
 O método desconstrutivo tem servido ainda, segundo Rorty, como uma “arma” de subversão do “conhecimento institucionalizado”, assim como das instituições sociais, o que acaba por resultar na atribuição a Derrida da missão teórica do “escritor público” que fornece estratégias para a mudança, fazendo frente a atos normativos  e  à  exclusão  social por meio da    destituição    das   categorias    filosóficas   de   domínio.
O que ocorre é que, num reflexo condicionado, alguns desconstrucionistas tendem a imediatamente colocar em suspeita todas as oposições binárias, diz Rorty.  “Freqüentemente, eles dizem que o termo ‘preferencial’ de uma  tal  oposição  sempre ‘pressupõe   o  outro  termo”,  como  numa  definibilidade  recíproca. “Com um pouquinho de imaginação e perspicácia, praticamente qualquer coisa pode ser vista enquanto um caso especial de praticamente qualquer outra coisa; a engenhosidade dialética e lingüística sempre será suficiente para recontextualizar qualquer coisa, de modo a lançar dúvida sobre sua importância ou seu papel  anterior”.
 Em alguns encaminhamentos desconstrutivistas das idéias derridianas, Rorty identifica uma tensão entre aspectos do espaço privado e temas pertinentes ao espaço público, entre o escritor com uma missão pública, capaz de oferecer munição e estratégia para a produção de mudança social, e o escritor que escreve “para o deleite dos que partilham de suas referências”, possibilitando com isso aos leitores a transfiguração dessas referências, que podem ser moldadas em novas formas, uma vez  fluidificados  os  velhos  vocabulários.

  (...) tentativas metafísicas ou teológicas de conjugar uma luta pela perfeição com um sentido da comunidade exigem que reconheçamos a existência de uma natureza humana comum. Exigem que acreditemos que o que há de mais importante para cada um de nós é  aquilo  que  temos  em comum   com  os  outros -  que  acreditemos que as  fontes  da  satisfação  privada  e as da  solidariedade  humana são  as  mesmas (...)


 Para Rorty, não há uma única teoria que tenha como unificar os  aspectos públicos  e as questões privadas.  Como captar todos os lados da vida numa visão de mundo apenas, num mesmo e único vocabulário?  Não é possível abarcar teoricamente, ao  mesmo tempo,  a  autocriação  e  a justiça,  a  busca  de perfeição  privada  e  a  solidariedade  humana.  O vocabulário privado da autocriação não é necessariamente partilhado e por isso acaba por tornar-se impróprio para a argumentação. Já o vocabulário que tematiza a justiça é público, pode ser  partilhado, o que o torna  um meio de troca argumentativa.
 A relação entre autores que escrevem sobre autonomia e autores que escrevem sobre justiça é como a relação entre dois tipos diferentes de ferramentas. Os que escrevem sobre autonomia dizem-nos que não precisamos falar apenas “a linguagem da tribo”, que podemos encontrar as nossas próprias palavras. Os autores que se emprenham num esforço social consideram que a autonomia não é a única responsabilidade que temos. “Ambos estão certos”, diz Rorty, “mas não há maneira de os fazer falar  uma mesma e única linguagem”.
 Ver outros seres humanos como “um de nós” e não como “eles” não é uma missão da teoria, na perspectiva de Rorty.  A etnografia, o texto jornalístico, filmes, telenovelas e romances vieram substituindo de forma gradual e constante o sermão religioso e os tratados teóricos, enquanto veículos de mudança e progresso no plano da moral contra a crueldade. Os laços sociais têm assim como ser regidos por um sentimento de empatia, de identificação com as emoções dos outros Não há um único metavocabulário que possa dar conta de todos os vocabulários possíveis, de todas as maneiras possíveis de julgar e sentir.
  E Rorty propõe com relação a isso “uma viragem geral” contra a teoria e ao encontro da narrativa, por sua capacidade de ligar o presente ao passado e também a utopias futuras, num processo permanente de realização de utopias e concepção de outras utopias. “Uma realização infindável da liberdade, e não uma convergência para uma Verdade já existente (...) Um objetivo a atingir não pela investigação, mas sim pela imaginação, pela capacidade imaginativa de ver em pessoas estranhas  companheiros   de  sofrimento. 
     Diz Derrida:

 (...) A hospitalidade é a própria cultura e não uma ética dentre outras. Por dizer respeito ao ethos, a saber, à morada, ao em-casa, ao lugar da  residência  familiar  tanto  quanto  ao  modo  de  estar  aí e de se relacionar consigo e com os  outros, com  os  outros  como  os  seus ou  como  estrangeiros, a ética é  hospitalidade, ela  é  inteiramente  co-extensiva  à  experiência  da  hospitalidade, quer  se  abra  ou   se  limite  de  alguma  maneira.

     

  O livro de Derrida em questão é La Carte Postale: de Socrates  à Freud  et au-delá. Paris. Flammarion, 1980.

 Os argumentos de Richard Rorty estão nos livros  Contingência, Ironia e Solidariedade. Lisboa. Editorial Presença, 1994 e Ensaios sobre Heidegger e Outros. Rio de Janeiro. Relume Dumará, 1999.